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100 POR CENTO LIVROS

08
Fev16

Desgraça

Nuno Chaves

 

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Costuma dizer-se que: «um azar nunca vem só» que o diga David Lurie o protagonista de Desgraça, um livro que me causou alguma estranheza no início e que me deixou um pouco sem saber o que dizer ou pensar já na recta final. (a última vez que me aconteceu algo semelhante com um livro foi à relativamente pouco tempo com «Sputnik meu amor»)

David Lurie um professor já na casa dos 50, vive sózinho e “conformado” com o seu modo de vida e profissão. Não gosta de dar aulas, apenas o faz por obrigação e necessidade e é ignorado pelos seus alunos como se fosse invisível. Recorre a prostitutas para «enganar» a solidão e sobretudo para se enganar a si próprio. Acaba por envolver-se demasiado com Soraya uma “prostituta nas hora vagas” que se escandaliza quando as turistas mostram os seios. A relação de Lurie com Soraya é quebrada quando o professor se intromete demasiado na sua vida “pós-laboral”  David sente inveja da vida de Soraya da vida dos seus filhos e de um marido que nem sequer conhece. David Lurie não tem vida própria, não tem ninguém, não tem nada.

Lurie aproxima-se de Melanie Isaacs uma jovem de 20 anos e sua aluna. Envolvem-se sexualmente e afectivamente durante algum tempo até que o caso se torna público e desmorona por completo a vida do professor.

Julgamos rapidamente conhecer David, quer pelo seu comportamento e atitudes, quer pela “perseguição” à jovem Melanie. uma verdadeira obsessão.

Tenho lido várias opiniões acerca deste livro e principalmente neste ponto quase todos são unânimes: David é  um pervertido cinquentão que engata meninas adolescentes ou prostitutas, um verdadeiro predador perigoso que convém a todo o custo manter afastado. Até certo ponto as suas atitudes doentias revoltaram-me bastante, mas à medida que a narrativa vai avançado a imagem de Lurie vai mudando… o que me fez voltar atrás e deixar de concordar com algumas opiniões acerca deste personagem.

Não considero David Lurie um predador, pelo menos neste contexto o de um homem que abusa sexualmente de adolescentes.

Pelo menos no que diz respeito a Melanie, ele seduz mas também é seduzido. Nunca obrigou a jovem a fazer nada que não estivesse disposta a fazer, e sendo ela maior de idade…

 Mas efectivamente nesta parte da narrativa o protagonista consegue ser detestável pelo facto de “perseguir a sua presa” na altura em que decide quebrar o limite do razoável ao aceder ao ficheiro de dados da jovem e descobrir o seu contacto. David está obsecado com Melanie. (é ele quem manda! ela apenas obedece – pág. 28) No entanto como já referi acabamos por conceber uma ideia acerca do professor… mas apercebemo-nos mais tarde que o autor só nos deixa pré-visualizar aquilo que bem entende.

David Lurie aceita todas as acusações que lhe são feitas e é demitido. Nesta parte do livro é bem demonstrada a hipocrisia dos seus colegas.

Decide então visitar a sua filha Lucy que vive no interior da África do Sul e é proprietária de uma “quinta” isolada onde esta vive da agricultura e se dedica também a receber cães que na sua maioria acabam por ser abandonados pelos donos.

A estadia de Lurie acaba por prolongar-se e este numa espécie de castigo vai executando as tarefas da quinta e ajudando a filha.

Até que um dia algo de muito mau acontece… (não irei aprofundar para quem ainda não tenha lido o livro não perder a surpresa) quem já o leu sabe do que falo. Numa África do Sul pós-apartheid não é muito difícil de descobrir.

A partir desse momento a vida de Lurie quase que se transforma e ele entra num caminho sem volta, numa verdadeira redenção (pelo menos é isso que parece) será?

Gostei bastante do final do livro, pois ao contrário daquilo que o leitor espera tudo fica em aberto, nada fica decidido. O episódio com o cãozinho deficiente foi para mim muito comovente e deixou-me a pensar se tal como o cão, David decide “seguir em frente” ou continuar conformado com a sua desgraça.

 

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Sinopse:
David Lurie é um  professor universitário de meia-idade, divorciado, que divide  o seu  tempo entre o desânimo das aulas e as satisfações momentâneas que lhe   proporciona uma prostituta chamada Soraya. Quando a prostituta deixa de o   atender, David dirige a sua atenção para uma jovem aluna, com a qual  terá uma  arriscada aventura. A denúncia da relação provocará um  autêntico naufrágio  existencial, que começa com a humilhação pública e o  afastamento do cargo.  David procura então a sua filha Lucy, que vive  numa quinta numa zona rural,  longe da Cidade do Cabo. Mas a desgraça  continuará a persegui-lo…

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