O Teu Rosto será o Último

PRÉMIO LEYA 2011
Gostei bastante deste 1º romance do autor João Ricardo Pedro, que soube agarrar o leitor logo à primeira página, com a história de Celestino e deixando-o ficar com água na boca até ao desenlace. Gostei deste livro, porque é um livro nosso. E quando digo nosso, faço-o porque senti a estória e a história, porque senti os personagens, as paisagens, as ruas, as palavras, os palavrões.
Dei por mim, algumas vezes a pensar como teria sido o processo do autor na criação dos seus personagens, um bom observador e um ouvinte atento com certeza. A riqueza deste livro para mim não se prendeu sequer com a estória mas sim nas várias estórias que se foram desenvolvendo e entrelaçando até se fundirem.
Uma saga familiar, que é contada a várias vozes e em vários pensamentos, desde a revolução de 25 de Abril de 1974 até aos dias de hoje, episódios que se não foram reais, têm tudo para ter sido. Nota-se que João Ricardo Pedro, é um ser atento e conhecedor da nossa história recente, É um autor da minha geração, logo existem certos aspectos e pormenores que dificilmente os poderá ter vivido, mas que aproveita e muito bem, pequenas histórias que com certeza terá ouvido talvez bem perto de si.
Gostei deste livro, pela sua linguagem crua e dura da realidade de um Portugal que em alguns aspectos se mantém intacto e intocável, gostei porque o autor me pareceu peixe na água em quase todas as situações, de uma extrema brutalidade e consciência da vida real (como ela é) mas também de uma extrema sensibilidade e um à vontade com a música clássica por exemplo.
Em suma e para não me tornar demasiadamente repetitivo termino com um: “gostei deste livro”, mas não sei explicar porquê, talvez porque não haja nada para explicar, posso no entanto assegurar que “O teu rosto será o último” não é um livro de meias medidas, ou se gosta, ou não se gosta.
É um livro, bem estruturado, bem escrito, com um princípio e um meio, mas é um livro que tem falta de um fim, um fim que sossegue o leitor, um fim à altura daquilo que o leitor desejaria…
Irei aguardar por novidades deste autor, que espero não perder de vista.
Sinopse:
Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu. Através de episódios aparentemente autónomos – e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial. Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias – muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras – que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?
