Por Favor não matem a Cotovia

Este era uma dos livros que há muito tempo queria ler. Pelas muitas opiniões que fui lendo, reparei que era um livro que ficava na memória dos leitores, e finalmente parti para a sua leitura graças à Roda dos Livros ( e ao Jorge Navarro).
Apenas a título de registo, e para quem ainda não leu e gostaria de o fazer ou comprar (e porque a editora Difel que o publicava já não existe) esta obra está também no catálogo da Relógio D’Água com o titulo “Mataram a Cotovia” (mais fiel ao original) mas é um bocadinho mais caro.
Como disse, há muitos anos que ansiava a sua leitura, entrei portanto com grandes expectativas, apenas posso dizer que é um livro fabuloso, com uma história cheia de significados e muitas interpretações.
Para quem apenas conhecia a sinopse da história (como eu), não tem noção da grandiosidade deste livro: o título “Por Favor Não matem a Cotovia” é por si só um fenómeno de magnetismo imediato… Mas depois aparece a pergunta: porquê a Cotovia? de facto a ideia que tenho da Cotovia é que é um pássaro pequeno (nem bonito nem feio) com uma cor que se assemelha a um Pardal e um aspecto parecido a um Canário, mas a maior semelhança com um canário talvez seja mesmo o canto destes pássaros.
Diz Harper Lee neste livro que matar uma cotovia é pecado: (explicação do personagem Atticus, para a sua filha pequena Scout)
“As cotovias não fazem mais nada senão cantar para satisfação nossa. Não comem coisas nos jardins das pessoas, não fazem ninhos nas searas, não causam danos a ninguém. É por isso que é pecado matar uma cotovia.”
De facto na minha interpretação a Cotovia surge aqui como uma espécie de metáfora precisamente pela inofesividade aparente e para aquilo que a história nos reserva. Se lermos a sinopse, ficamos com a ideia de que se trata apenas de um livro sobre o racismo, mas esta história é muito mais que isso. A história em si é vista pelos olhos da pequena e ainda inocente Scout, que à semelhança da Cotovia, não tem, nem vê qualquer maldade nos adultos. São as várias situações a que irá estar sujeita que a obrigam à força a ver o mundo com outros olhos.
O pai Atticus é um advogado, que aceita um dia a defesa de um negro que é acusado de violar uma jovem branca, numa altura em que tudo o que de mau acontecia “era culpa dos pretos” a revolta da pequena população local, não se faz esperar. A família de Atticus começa a a ser perseguida e humilhada, porque o advogado contra tudo e contra todos insiste em defender o homem acusado, sabendo o leitor de ante-mão que está inocente. Esta é uma das partes mais revoltantes da história, em que o leitor fica impotente, ansiando pela reviravolta.
Mais do que racismo “Por Favor Não Matem a Cotovia” fala de Amor e de Respeito pelo próximo e sobretudo respeito pelas diferenças, não apenas da cor da pele, mas também as diferenças entre pessoas e classes sociais. Atticus é um personagem incrível e como viúvo e pai solteiro é fantástica a actuação com os seus dois filhos, Um homem que está à frente do tempo.
Este livro é uma enorme lição para todos aqueles que ainda hoje não sabem lidar com a diferença.
Porque as diferenças existem…. Sempre existiram. A intolerância também e continua a existir.
Gostei muito deste livro. recomendo-o sem qualquer reserva. É um livro imprescindível.
Sinopse:
Durante os anos da Depressão, Atticus Finch, um advogado viúvo de Maycomb, uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, recebe a dura tarefa de defender um homem negro injustamente acusado de violar uma jovem branca. Através do olhar curioso e rebelde de uma criança, Harper Lee descreve-nos o dia-a-dia de uma comunidade conservadora onde o preconceito e o racismo caracterizam as relações humanas, revelando-nos, ao mesmo tempo, o processo de crescimento, aprendizagem e descoberta do mundo típicos da infância. Recentemente, alguns dos mais importantes livreiros norte-americanos atribuíram grande destaque ao livro, ao elegerem-no como o melhor romance do século XX.